Núcleo de Estudos Hidrogeológicos e do Meio Ambiente

Centro de Pesquisa em Geofísica e Geologia Instituto de Geociências - UFBA

Início
Início

Importância do Geoprocessamento nas Análises em Saúde

Autores: Andréa Sobral* e Reinaldo Souza-Santos*

A localização de eventos de saúde no espaço geográfico com base em mapas não é recente. Em 1854, o médico John Snow investigou no bairro de Soho, em Londres, um surto de cólera. Ele mapeou com base nos croquis dos quarteirões, as casas atingidas e relacionou com as pessoas que beberam água de uma fonte na Broad Street. Logo, percebeu que aquele surto em particular ocorrera em torno de uma bomba de água compartilhada que a maioria dos habitantes usava para coletar água para beber e lavar. Essa foi a primeira vez que um mapa foi usado para melhor compreensão de uma doença e estabelecer medidas de controle.

No final da década 1980, a área da saúde foi impulsionada pelo advento da informática e automação de processos, se iniciou a discussão e o uso de técnicas voltadas para o processamento de dados localizados geograficamente, denominadas de técnicas de geoprocessamento.

Apesar de não existir consenso na definição do termo geoprocessamento, a mais usada na área da saúde é a que define como um conjunto de tecnologias de coleta, tratamento, manipulação e apresentação de dados espaciais. Se considera o geoprocessamento como uma área do conhecimento que pode envolver diversas disciplinas, como a computação, estatística, cartografia e geografia. As técnicas de geoprocessamento mais usadas são: cartografia digital, estatística espacial, sensoriamento remoto e os Sistemas de Informações Geográficas (SIG).

Vários são os estudos que utilizam o geoprocessamento de dados em saúde, estes vão desde temas relacionados aos serviços de saúde, saúde ambiental, epidemiologia de doenças crônicas não transmissíveis, epidemiologia de doenças transmissíveis, incluindo vetores e hospedeiros silvestres, como por exemplo, estudos sobre epizootias de Febre amarela em primatas não-humanos ou sobre a identificação de áreas de risco para a presença de Aedes aegypti, vetor dos vários arbovírus (dengue, febre amarela, zika, chikungunya, mayaro).

A melhora e o aumento na disponibilidade de bases de dados e dos SIG trouxeram ganhos importantíssimos para aplicação do geoprocessamento na área da saúde. Bases digitais como mapas georreferenciados dos estados e municípios brasileiros, e de divisões internas aos municípios, como os setores censitários, em conjunto com bancos de dados com informações censitárias e amostrais para todos estes níveis de agregação são um dos exemplos. Além desses, podemos citar os Sistemas de Informação em Saúde que abarcam dados sobre nascimentos, óbitos e doenças de notificação compulsória, entre eles o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), Sistema de Nascidos Vivos (SINASC) e Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). As informações desses sistemas podem ser importadas para um ambiente SIG e relacionadas às suas respectivas feições geográficas.

Nesse contexto de bases importantes para os estudos em saúde, consideramos de forma inovadora o uso da tecnologia do sensoriamento remoto, que teve um impacto importantíssimo nas análises sobre o uso e ocupação do solo, cobertura vegetal, temperaturas, umidades, queimadas, e a associação com determinados agravos no espaço e no tempo. Essa tecnologia refere-se a imagens, em formato raster, que podem ser obtidas de satélites ou de produtos dessas imagens, além veículos aéreos não tripulados (VANT ou DRONE), entre outros. O acesso livre e gratuito de algumas das bases de imagens de satélite propiciou de forma oportuna o uso dessa ferramenta nos estudos.

Tudo isso atrelado ao uso de técnicas de análise espacial avançadas (detecção de conglomerados espaciais, modelagem de estatística espacial, entre outras) e da aplicação em programas gratuitos (SatScan, Geoda, Qgis), possibilitou a realização de estudos que pretendiam avaliar a distribuição espacial de um evento/agravo em saúde levando em conta a dependência espacial, elemento fundamental nos estudos que tem como premissa a hipótese de os eventos não ocorrem de forma independente no espaço.

As possibilidades de técnicas disponíveis em SIGs robustos, permitem análises que são úteis na identificação de áreas de risco para determinados agravos, bem como na análise destes que busquem relação com variáveis ambientais extraídas de informações sobre uso e ocupação do solo ou de variáveis climáticas, extraídas de produtos de sensoriamento remoto e de métodos de reanálise para o monitoramento climático; ou na combinação de variáveis, ambientais, climáticas socioeconômicas a partir do uso de modelos estatísticos espaciais que permite tratar a heterogeneidade espacial e espaço-temporal, levando em conta tanto a vizinhança (a dependência espacial) como a existência de estruturas hierárquicas de dados em questão.

Em resumo, a aplicação do geoprocessamento e das técnicas de análise espacial associadas ao acesso livre e gratuito de SIGs e de inúmeras fontes de dados, vem abrindo oportunidades de uso na área de saúde pública, não somente para pesquisadores em seus estudos, mas especialmente para os profissionais que atuam na área da vigilância em saúde.

* Líderes do Grupo de Pesquisa Epidemiologia Espacial do CNPq (http://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/229620)

Pesquisadores do Departamento de Endemias Samuel Pessoa, da Escola Nacional de Saúde Pública - Fundação Oswaldo Cruz

Contato: andrea.almeida@ensp.fiocruz.br; rssantos@ensp.fiocruz.br